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DESMEDIDAS

João Masao Kamita

Tudo começa com a coleta. Reunir, guardar, acumular coisas: tubos de papelão, rolhas, ripas de madeira ou fragmentos de galhos caídos após uma tempestade. Uma coleção implica seleção e classificação, isto é, a busca de um certo princípio de identidade. O fato de serem da mesma espécie não assegura, porém, uma conexão intrínseca. Ao contrário, a razão do número ou tipo parece distanciá-las, rebaixando sua individualidade, suprimindo seu caráter singular, em suma, reduzindo-as a apenas elemento da série.

Daí uma trama a enlaçar as coisas, feita de laço, nó, amarra. Fitas, linhas, cordas coloridas envolvem, amparam, seguram as peças coletadas, mas deixam em aberto seu modo de formalização. No jogo tenso entre o elemento que se repete e a ordem flexível que o enlace promove, percebemos o paradoxo de uma disciplina geométrica em contato com uma pulsão afetiva.

Há, por certo, algo de primordial nesse ato de ligar, uma energia física sempre presente, como se tal articulação pretendesse formar um autêntico nó ontológico entre os seres. A costura das coisas faz lembrar a idéia do historiador da arte da Gottfried Semper acerca origem da obra de arte a partir do conceito de tectônica, isto é, como uma estrutura articulada que delimita um campo espacial. Trata-se de clara divergência com tradição clássica que vê na massa sólida, em cujo interior ressoaria latente a forma, a origem das artes plásticas. O pressuposto construtivo da tectônica negaria o impulso mimético que extrai a forma da matéria.

Podemos verificar tais modos na arte da tecelagem, na carpintaria e mesmo na construção da cabana primitiva de fibra vegetal e madeira. Em suma, em armações leves que tendem à imaterialidade e valorizam a junção dos elementos constituintes. No limite se trataria de uma forma que se amolda às condições existentes, sejam físicas, psicológicas, corpóreas, enfim, ao que temos no lugar.

O desafio da artista, contudo, é intervir num espaço previamente carregado de sentido, de intencionalidade artística. Não se trata de um convencional cubo branco, mas da arquitetura de Le Corbusier, porém de um Corbusier que tinha recém-descoberto o espaço do sagrado, no qual os homens anseiam comunicar terra e céu. Nesse todo voltado para o interior, o arquiteto arma uma verdadeira tensão visual que percorre todo o edifício, forçando os limites dialéticos entre repetitivo e singular, entre geometria cartesiana e emoção plástica, matéria e luz, reta e curva, plano e profundidade.

Reside justamente aí o ponto de conexão entre as instalações de iracema barbosa e a obra de Le Corbusier: na permuta incessante entre ordens divergentes.

Justamente por isso, as intervenções tiram partido do percurso interno, localizando-se em pontos de passagem estratégicos: no oratorio, no corrredor da biblioteca, no atrium, no petit conduit e na cripta. Em resumo, a estratégia é se deixar levar pela "promenade architecturale" elaborada pelo arquiteto. Mas seguir tal raciocínio dialético implica, contradizê-lo, e isto se dá pelo modo como as instáveis estruturas articuladas de rolhas, ripas, galhos e tubos ressoam contra a densidade sólida e abrasiva da matéria construtiva do edifício. Bois de carnaval traz a floresta culturalizada para o interior, mas de modo inverso, pois caem soltos do teto, roçando as ásperas paredes do longo e estreito corredor. A luz em movimento que entra das frestas rasgadas na áspera parede acentuam a vibração cromática e jogo de luz e sombra tornando o espaço ainda mais "indecidible". The tube é a instabilidade reverberando nos patamares do piso da cripta, entregues a sorte não fosse a corda que as amarra e a concentração de seu próprio peso. Já as ripas coloridas das equilibristas provocam uma desestabilização tanto ótica, por causa do jogo de cores (tons são intencionalmente próximos e opacos para aderirem à madeira), como física, pela quantidade e disposição "desarrumada", cujo invólucro arquitetônico não mais é suficiente para suportá-los. O corpo não consegue se decidir se as ripas estão em repouso ou em movimento, já que na realidade estariam na iminência de um colapso.

Frente à enfática expressividade plástica do convento de Le Corbusier, as delicadas interveções propostas não deixam de evidenciar, contudo, certa fragilidade. Justamente por isso, assinalam (apesar das evidentes afinidades) sua diferença para com o moderno ao demonstrar, por contraste, como a tensão plástica em Le Corbusier se sustenta sobre uma noção de equilíbrio ainda clássico, uma vez que suas poderosas articulações construtivas dependem ainda do exercício soberano de uma vontade expressiva.

As instalações de iracema barbosa não deixam de se colocar como um modo de refletir sobre a dramática condição de presença na contemporaneidade, que parece admitir apenas arranjos precários, conexões provisórios. Isso não significa, e é isso que a artista demonstra, que a arte deva se conformar a um habitar insubstancial, como se não fosse mais possível qualquer forma de experiência vivencial e corpórea.

(texto original de João Masao Kamita para o catálogo da exposição Démesurer no Couvent de la Tourette)




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