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BOIS DE CARNAVAL


Este trabalho nasceu aqui, no Bois de Vincennes. Foi se construindo a partir da necessidade de interação nesta nova paisagem que, a cada dia, se desdobra em volta de mim. Necessidade de interpretar ou de traduzir a mudança, as mudanças das cores e as quedas dos frutos, das folhas e dos galhos secos. Impressionada com a nudez das árvores, que expõem esta trama de galhos no alto das árvores, sseparando o céu em pedaços. Paisagem exótica dentro da minha existência tão tropical.

Mas, mais do que isto, possibilidade alcançável e silenciosa de comunicação e de trabalho aqui.

Comecei a colecionar os galhos caídos. Selecionando galhos finos, lisos, longos e tortos que ia recolhendo, limpando, organizando e armazenando. Precisava reorganizar as coisas. Bois em português é madeira, algo que ocupa um lugar no espaço, é uma palavra que vem de matéria , que na origem de sua definição esta relacionada a origem das coisas. Matéria é corpo e nos remete inevitavelmente à carne.

Foi da necessidade de amarrar os galhos caídos do Bois de Vincennes que comecei a utilizar as fitinhas coloridas que havia trazido do atelier de minha avó, em Brasília. Fitinhas brilhantes, que pareciam ainda úmidas, como frutas, em cores que me faltavam.

No ato de amarrar as fitinhas muitas lembranças foram surgindo, como a presença dessas fitas nas festas populares no Brasil, e em especial, a da Igreja do Bonfim. Porque as fitinhas do Bonfim são também exercício de esperança.

Parece que muitas coisas se juntam neste trabalho que se realiza como um ritual: repete gestos e pausas, estica e amarra. memórias e outros significados, trama um outro tempo.

Essas fitinhas, na estrutura móvel do trabalho, se esticam e se dirigem à nossos pés, tais como as serpentinas. Lembro do ato de lançar as serpentinas nos carnavais, de ver o traçado delas nos ar até caírem no chão. Por isso, a idéia desta exposição não tem nada a ver com as idéias comuns sobre o Carnaval. O Carnaval aqui é apenas uma licença poética. Continuo a me envolver com uma geometria que evidencia o desmedido a construir séries ineguais, imprecisas e artesanais.

Vontade de provocar, de fazer brincadeira, de reorganizar algumas coisas, balançar no meio de tantas securas. Mergulho nesta fusão, contração, alternância, balanço. E mostrar este trabalho em Fontenay sous Bois, no Carnaval, faz parte desta fusão, ou da confusão.

(texto escrito em 2003 para convite da exposição bois de carnaval na galeru)






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